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August 24, 2008

Dreamcatcher

Olhando pra tràs as vezes nos damos conta de coisas que as vezes tomamos como banalidades diárias vêm afetando nossas vidas. Não irei ser tão direto, eu acho, ou tão preto no branco mas antes que me perguntem: não é disso que estou falando.


Me dei conta que fazem dez anos que, pela primeira vez, segui para a Pedra do Arpoador e comecei a perceber que não pertenço a esta costa. Sentado no topo do monolito de pedra vendo as vagas se chocarem contra si, tive a sensação de que eu não fazia parte daquele cenário. De que eu era totalmente inadequado àquilo tudo. Por mais bela que fosse a paisagem que se descortinava a minha frente, e acreditem, era uma tarde belíssima, e por mais agradável que pudesse estar o clima algo dentro de mim dizia: este não é o seu lar.

Mas como minha experiência em visitar outros lugares era muito mais limitada do que é hoje, esta idéia passou como um sussurro pelos ouvidos mas se enraizou na cabeça. Ao passo que fui conhecendo outros lugares, outras culturas, outros modos de pensar e afins eu fui criando bases que no final só corroboravam com aquela brisa que me mostrou que meu lugar não é aqui.

Desde então muito foi feito, muito suor, lágrimas, tentativas, fracassos sempre com o objetivo final de se alcançar o graal. Hoje, dez anos depois, ainda estou aqui. Longe de casa, e com um sentimento de inveja daqueles que conseguiram cumprir o que durante todo esse tempo eu tenho tentado e nunca conseguido: ir embora.

Tenho a sensação que estas pessoas estão se apropriando deste meu ideal, deste meu sonho enquanto fico aqui em uma luta quase que quixotesca em busca do retorno ao lar que nunca vem. Mas sendo como sou não desisto e vou continuar até o dia em que eu deixar de existir.

May 31, 2008

Wherever you are

1am. After a long tiring day at the office I decided, after spending some quality time at a café nearby, I decided to sit at the spanish steps. I still had a bottle of wine in my hands. It's a nasty habit I've learned from the italians: always bring your own wine since cafés and restaurants hardly ever know your taste anyway (except the really expensive ones but that doesn't matter).

It was a chilly night and at this time of night nobody else was there, the famous Piazza di Spagna was empty leaving myself alone with my thoughts. Not a awhile ago I remember to be writing my blog back home scenes precisely like this one. Every single detail was there. I remember being able almost to hear the quiet sound of Amsterdam's channels, of the cheerful tunes of Munich's bierhauses.

But one thing I always felt about these texts: they couldn't give the readers a proper idea of how it felt to be truly living these moments. I've always had the idea that no matter how well I described things (which I didn't), they'd always be missing somenthing like the thrill of diving into the Inn Valley in the Alps to arrive at Innsbruck or the warm and relieving feel of the tears that insisted to fall when I saw the Eiffel Tower for the first time many years ago.

As my sight was lost in the long Via Condotti I realized something: in all of my posts I've never talked about this place. For some unknown reason I left Rome forgotten in my posts. It's interesting because I've written about many things, situations and places but never talked about this beautiful place, for some the cradle of western civilization.

Unfair! Oops..guess I just let my thoughts slip through my mouth...think I said it out loud. But I decided to fix that and write a new post there about this place, it's people and my experience here which is being much more than fantastic.

2:30am. I run out of wine, but I feel like having some more. Guess the roman air requires you to have your wine always close. I think I'll stop by a café on my way back home. Before leaving, I walked towards la fontana de la barcaccia, to drop a dime as I always do when I stop by the steps. When I threw the coin I noticed that someone was watching me bacause I could make out a face through the water reflexion. As I turned back I could see this blue-eyed brunette woman smiling at me and looking at me so sweetly that I felt she was no stranger.

I had the weird impression of déjà vu so I decided to ask her if we've seen each other before (using my lousy italian). She answered me:

"Oui, nous avons nous rencontré plusieurs fois à plusieurs places de plusieurs manières. Tu me trouveras dans ton poche et dans ton coeur aussi."
(Yes, we've met many times at many places on many ways. You'll find me inside your pocket and also inside your heart.)

I was puzzled. Why would she speak french if I asked her in italian and I was in Rome! I had nothing else to do: I reached my pocket and I felt something: it was the paper from my dream. How on Earth did it end up in there? It was folded in half and had "Je t'aime" written on it.

When I showed it to her she smiled and held my hands. Never before I felt such warm, delicate and soft hands in my life. After that she took my right hand and moved it towards her face. When it did she just said:

"Je suis réel."
(I am real.)

When I heard that I started crying like I never did in my life. I wasn't loud, it was a resolute cry of relief, liberating years of frustration imprisoned deep inside me.

While my tears were cascading though my face she took my hand again and said:

"Je suis réel mais tu ne m'as jamais connu...encore. Cette vie ici est réel aussi mais pas maintenant. C'est un rêve mais je ne te quitterai jamais mon amour et ne désespère pas: nous nous trouverons à la vie réel au futur...proche. Moi je existe aussi, je ne suis pas partie de ton imagination. J'éxiste et je te cherche tous les jours."
(I am real but you never met me...yet. This life here is real as well but not now. This is a dream but I'll never leave you, love and do not despair: we will find each other in real life...soon. As for me I also exist, I'm not part of your imagination. I exist and and I look for you everyday.)

After she said that, while I was still crying she came closer and kissed me. It was different the the one in the other dream: this time everything moved really fast turning reality into a typhoon of thoughts and feelings and when I felt that it was time to go back I could see her face and hear she saying:

"Je suis toujours avec toi."
(I'm always with you.)

After she said that the inevitable happened: I woke up...again. I noticed something weird this time: my face was red and swollen and my pillow was wet. The tears...they were real.

Je dédie ce texte à toi...partout où tu es.

February 25, 2008

Over the hills and far away

Segunda feira de manha. Existe momento maior de ressaca na semana? Duvido. Escrevo após ler o jornal onde pude ler sobre a derrota do Botafogo, e a subsequente e ridícula choradeira do técnico da equipe e do presidente do clube, e sobre a entrega dos Oscares (vulgo homens carecas, dourados e pelados).

Não irei comentar sobre a partida de futebol visto que irei causar feridas profundas (...not!) em minha ampla (...not!) base de leitores, além de provocar comentários inflamados que virão a causar somente uma queda no nível dos comentários sempre pertinentes daqueles que habitam este espaço.

Já sobre os Oscares só alguns comentários: o Javier Bardem parecia que tinha fugido do zoológico, ou que era um primo do elo perdido. Me irritou sobre maneira o apresentador (Jon Stewart) pronunciar de maneira esquisita o nome da Cate Blanchett...quem não sabe o que estou falando que veja no VocêTubo. Falando da atriz australiana, por mais que a Tilda Swinton seja excepcional ainda acho que a atuação dela em "I'm not there" valeria mais a premiação.

Uma constatação positiva: a Björk não apareceu e isso é digno de sorrisos e suspiros de alívio. De resto, é o resto. O canal E! mostrou as futilidades de sempre antes, durante e depois da cerimônia. E sobre a transmissão do evento em si só um comentário final: ainda bem que existe o SAP.

Mas voltando. Este não é um post sobre o Oscar. Deixo isso para as especialistas (vocês sabem quem são), quero falar de ressaca. Antes que perguntem: não enchi a cara ontem. Não bebi após gargalhar com a vitória do Flamengo nem com as pérolas do cartola alvinegro dizendo que o "Botafogo é time de macho".

Estou de ressaca com as memórias de dias não muito distantes, onde estava em casa. Em um lugar em que podia sentir em cada milímetro do meu corpo que eu pertencia àquilo tudo. Saio na rua, olho ao redor e sinto uma total e irrestrita incompatibilidade com o ambiente que me cerca, com o céu sobre minha cabeça, com o vento quente que bate no meu rosto.

Não desprezo o lugar onde estou agora, mesmo porque existem coisas aqui que me ajudam a aliviar essa sensação de incompatibilidade, existem pessoas que tornam isso um pouco mais tolerável. Mas por mais fantástico que as outras pessoas achem que é tudo isso que nos cerca eu acho que está na hora de juntar as coisas se seguir adiante de volta ao lar, de onde não deveria ter saído.

February 18, 2008

Rock me Amadeus

Afternoon at downtown Vienna. The cloudy skies above Stephansplatz were giving one of Vienna's landmarks (the Stephansdom in case you don't know) a grim character: a misleading one. This impressive gothic church, consacrated at 1147 AD, towering 136 meters above the square is everything but grim. It's colourful rooptops and the flamboyant architectural details state that this place of worship was made to impress and it works damn well.

Right next to the church, a group of street artists were performing a very weird dance, I cannot describe it to you fellow readers because I just wouldn't know where to begin.

As I walked around the busy streets of downtown Vienna I felt that the bad impression I had of the city when I first went to the Belvedere was very unfair. The decadent-old-eastern-Europe feeling of the Südbanhof area was totally different from the charming old architecture of this area. As I passed by these old buildings and the beautifully preserved monuments I started to feel Vienna's true nature and character: it's a mature city but not an old one. Austria's capital is an open minded middle aged person. I'd say that the city's character matches Austria's famous artist Falco (when at his peak naturally).

I didn't have any plans that day, all I wanted to do was to walk around Vienna without any particular place to go. If I could see a building that was able to get my attention, I'd walk towards it. And so I found the Sisi Museum at the Hofburg. I wasn't much surprised, actually I thought that it took too long for me to find anything Sisi-related, since plenty of people go to Vienna to be where she went.

As I walked through the palace I ended up in the beautiful Heldenplatz where I saw the sunset behind Vienna's historical buildings. As the night slowly came and the city lights started to show I realized that the dream was close to an end. Vienna was my last stop and I didn't want to cross the pond back "home", after all I was at home so what's the point, right?

With that idea in my mind I walked towards the Museumsquartier with its beautiful squares and buildings but that thought just would gte out of my mind. As I walked towards the U-Bahn the air became somewhat sweet and tender, I'm not able to explain but it felt like something was telling me that I was right: I was "home".

PS: Now for the yet famous super-quick-travel-tips, featuring Vienna
PS1: Like Gustav Klimt? Go to the Belvedere, they even have one Van Gogh there.
PS2: Don't judge Vienna for the Südbanhof area.
PS3: Schoss Schönbrunn: if you go snickers are a must.
PS4: Like classical music? Mozarthaus is the place to go.
PS5: Don't be on a diet since Austria is famous for their food, specially stuff with chocolate and marzipan.
PS6: Stephansdom is worth the visit.
PS7: So is Peterskirche.
PS8: Austrian beer isn't as good as the bavarian one but still pretty decent.
PS9: Don't be afraid of the Döner Kebap joints. But don't pay more than 3 euros for one.
PS10: Try Imbiss too.
PS11: Falco is still big in Austria, so expect to see his face somewhere.
PS12: When crossing the street watch for the bikes...and trams...and cars...and buses.
PS13: If you understand a bit of german you notice that the austrian accent is very funny.
PS14: Euro 2008? Austria's team sucks.
PS15: Prader: worth a visit.
PS16: Vienna Opera House: gorgeous!
PS17: In case you don't know or remember Falco here he is:




PS18: The above picture is of Vienna's Opera House and it isn't mine.
PS19: I know nobody is going to see this new addon to this post but I totally forgot about this Falco video. It shows a lot of Vienna. The song is called Vienna Calling (naturally):




PS20: RIP Falco ( 19/02/1957 - 06/02/1998)

February 14, 2008

Drink up me 'earties, yo ho

"Por favor, mais uma." É o que mais ouvi falar e foi o que mais falei na capital da Bavária. Como um australiano me disse uma vez "A Alemanha é um lugar estranho: quando menos se percebe, uma cerveja aparece na sua mão." E é a mais pura verdade. As vezes me perguntava de onde aquela caneca tinha surgido mas não me importava pois a qualidade da bebida era excelente.

Não é a mesma coisa que você comprar uma garrafa de cerveja alemã no mercado, além do gosto ser diferente o ambiente faz toda diferença e nisso Munique faz toda a diferença.

A noite avançava na cervejaria onde, na companhia de outros viajantes, bebia várias canecas de diferentes cervejas locais. A conversa fluia alegre e todos queriam saber sobre os lugares de onde as pessoas vieram. Era uma sensação interessante, de fazer parte de algo muito maior. Eu não era apenas brasileiro mas fazia parte de uma comunidade realmente global. Canadenses, australianos, americanos, alemães, todos em uma mesma mesa rindo, contando piadas e bebendo (claro, afinal é Munique). Foi uma bela sensação, que dificilmente senti em Pindorama talvez devido à falta do caráter cosmopolita das terras Tupiniquins.

Ao sair da cervejaria resolvi ir a pé de volta ao albergue, era perto mas não tão perto assim. Enquanto os outros conversavam, já sob efeito de muita bebida, eu caminhava olhando tudo que se passava ao meu redor. Eram altas horas da madrugada alemã e ainda podia-se ver pessoas nas ruas saindo das cervejarias, outras parando para comer alguma coisa e outras simplesmente, como eu, apreciando a paisagem.

Ao passar por Marienplatz pude perceber como tudo aquilo era bonito e bem cuidado. Senti uma ponta (mais para iceberg) de inveja. Gostaria muito que o povo da minha cidade tivesse o zelo que os bávaros tinham com sua capital, todos os prédios limpos, sem um milímetro de pixação, nem meio cartaz colado e nenhum outdoor escondendo suas fachadas, realmente uma beleza. "Ah se o Rio fosse assim..." pensei alto, chamando atenção dos que estavam comigo, mas como ninguém entendeu (visto que português é língua morta fora dos países lusófonos) apenas ouvi risadas e uma piada "Olha só..o cara está tão bêbado que só consegue falar sua língua." achei graça e ri também, afinal talvez não estivessem tão errados assim.

Descendo a Neuhauser Strasse, cheguei em Karlsplatz. Uma pela praça que, após uma reforma agregou várias interferências modernas em sua arquitetura clássica, bem típico da Alemanha atual. Lá pude perceber que podia ver a lua, sob uma fina névoa, refletida em um dos elementos de aço da praça. "Devia ter trazido a câmera", pensei mas depois lembrei que não seria uma boa idéia. Mas logo depois lembrei que a imagem já estaria gravada para sempre em minha mente e, por isso, não precisava de câmera.

É verdade, não precisava de câmera. Afinal câmeras registram apenas imagens que podem transmitir sensações mas uma câmera não transporta o aroma suave da madrugada de Munique, ou o som dos passos tranquilos na Maximilianstrasse ou a sensação de bem estar por estar, finalmente, em um lugar que realmente gostava e me sentia parte dele.

PS: Munich travel tips
PS1: Rathaus-Glockenspiel - Se quiserem ir preparem-se para lidar com multidões, mas como os sinos não demoram muito não tem problema.
PS2: Andar de Karlsplatz (Stachus para os bávaros mais xiitas) até a Hofbräuhaus vale a pena.
PS3: Gosta de carros? BMW Welt e não se fala mais nisso.
PS4: Gosta de esportes? Olympiapark. Do lado do BMW Welt.
PS5: Futebol? Allianz Arena. Parece um pneu gigantesco.
PS6: Não deixem de ir ao Deutsches Museum. É muito divertido.
PS7: Se gostarem de história e tiverem estômago forte vão a Dachau.
PS8: Cerveja ao ar livre com boa comida? Viktualienmarkt e de quebra encham suas garrafas nas fontes do lugar: a água é limpa.
PS9: Se tiverem um pouco mais de tempo vão ao castelo Neuschwanstein. Walt Disney se inspirou nele para criar o da Disneyland.
PS10: Existe vida em Munique para os que não bebem, tentem suco de maçã.
PS11: Se você não gosta de porco, ai fica difícil, mas experimente mesmo assim.
PS12: O chucrute (sauerkraut para os locais) alemão é outro mundo.
PS13: Nem adianta procurar a cervejaria do Putsch de Munique. Ela foi destruída na guerra.
PS14: Mas a cervejaria onde nasceu o NSDAP (vulgo partido nazista) existe: Hofbräuhaus.
PS15: Visitem a Frauenkirche e vejam a pegada do diabo. (ele calça 41 pelo jeito)
PS16: Nem tentem procurar sinais nazistas em Munique: foram todos retirados.
PS17: "Não existe alcoolismo em Munique, apenas algumas pessoas com distúrbios alimentares."
PS18: A foto é da Altes Rathaus em Marienplatz. E, como sempre, não é minha.

January 23, 2008

So don't tell Scotty

Venho por meio desta avisar a meus caros 2 leitores que estarei ausente por um tempo, afinal pseudo-blogueiros também tiram férias. Não prometo atualizações de onde estiver mas quando retornar ao lar certamente farei.

Nesse meio tempo recomendo utilizar os 10 segundos que vocês utilizam do seu tempo comigo para coisas lúdicas como observar os pássaros, ir tomar um chopp no botecão da esquina ou qualquer coisa do gênero.

Aos que gostam de blogs recomendo os linkados à direita da página.

E é isso. Saudações simpáticas (e hipócritas) e até daqui a uns dias!

October 11, 2007

Time goes by


"Good afternoon, ladies and gentlemen. Welcome aboard our Boeing 747-400 and to flight 247 to London, Heathrow Airport, with a stop at São Paulo, Guarulhos. Our flight to São Paulo will last 45 minutes and the continuation to London will take 13 hours."

Assim comecou o retorno ao lar, com uma inglesa com seus 35 anos, com um sotaque fantástico, fazendo o speech do vôo. Mas eu não prestava a mínima atenção nele. A ponte aérea Londres - Rio já tinha impresso esse texto em minha mente, assim como as instruções de segurança que se seguiram nos monitores do avião.

Resolvi ignorar tudo isso e olhar pra fora. Comecei a lembrar da minha infância sentado no finado terraço do aeroporto. Esperava minha mãe retornar de São Paulo onde trabalhava durante a semana. Meu pai sempre me colocava sentado no parapeito da sacada e me mostrava os aviões. Ficava fascinado com aquilo tudo e sonhava, um dia, estar dentro de um daqueles monstros metálicos.

Cá estava eu, dentro de um deles. As vezes não nos damos conta mas sem perceber realizamos, todo dia, um pequeno sonho de infância que fica esquecido no passado.

Infância...não almejava ir embora. Estava feliz ali. Estava realmente em casa, com meus pais, família e amigos. Jogar bola na rua (inclinada), jogar bonequinhos com "para-quedas" da janela dos amigos, passear de bicicleta... realmente as coisas são mais simples quando se é uma criança.

Porque almejar mudar se a vida era boa onde estava? Porque desejar sair de casa? Engraçado como o conceito de casa mudou durante todos esses anos, a vida simples da infância se tornou atribulada e incompatível com o lugar onde estava.

"Ladies and gentlemen, welcome to São Paulo, Guarulhos International Airport. The outside temperature is 26 degrees. We'll remain on the ground for 1 hour and 30 minutes, during this time drinks will be served and the crew will be available for any inquiries. Thank you for flying British Airways."

Já estava em São Paulo. Meus pensamentos foram tão longe que não percebi a decolagem e o pouso. Engraçado como essas coisas fazem a gente se desligar da realidade que nos cerca.

Realidade..que me foi jogada na cara com uma sensação horrível de não estar adequado às necessidades da sociedade, de não se sentir parte integrante da comunidade onde vivia.

Com essa sensação pensei a respeito e vi o que era preciso para que me sentisse em casa de novo. A solução foi ir embora e fazer vida nova, e fiz o que foi preciso para que isso acontecesse.

"Attention, crew, prepare for takeoff."

Será que não percebi o tempo passar de novo? Não importa.

O avião descola-se do solo paulista, vou subindo em direção ao infinito velozmente mas minha mente foi mais rápida. Já estava em casa, com a mala, colocando a chave na porta da frente.

October 09, 2007

There's no place like home


Toca o telefone:
- O senhor pediu um taxi para o aeroporto? Pergunta a voz na outra ponta da linha.
- Sim, agora a pouco.
- Pode descer, por favor. O carro está chegando.

Agradeci e desliguei o telefone. Busquei minha mala, e a tranquei com um cadeado com senha. Alguns amigos que trabalham no aeroporto me disseram que ele não adianta muito mas virou um vício de viagem. Verifiquei minha mochila:

- Deixe-me ver...carteira...chave de casa...passaporte...livro...roupa extra...desodorante...escova de dente...escova...

Tudo me parecia estar lá, como havia deixado na noite anterior. Sabendo disso, coloquei a mochila nas costas, apanhei o material fotográfico, afinal como poderia voltar para casa sem minha inseparável câmera, e a mala e desci para embarcar no taxi.

Chegando na calçada ele já estava no meu aguardo e quando me aproximei, o motorista prontamente saiu do taxi para me ajudar com a minha carga. O taxista era um senhor com uns 60 anos, baixinho com boina e bigode. Parecia uma caricatura. Sempre solícito e sorrindo ele ajudou a guardar meus volumes no porta-malas do carro.

Após o entrar no carro, o taxista prontamente acelerou e lá fomos nós rumo ao aeroporto. Durante a viagem até a Ilha do Governador, resolvi ligar para meus pais e me despedir deles. Minha mãe parecia estar feliz com o fato de eu estar me sentindo em casa no meu posto, apesar de tão longe de casa.

- Um beijo, querido. Boa viagem! Quando chegar em Londres, me avise...você sabe que fico preocupada.

Após ela dizer isso me veio o velho chavão: "Mãe é tudo igual, só muda de endereço."

Após desligar com ela, o simpático taxista me fez uma pergunta:

- Desculpe me intrometer, mas o senhor está de mudança?
- Não não. - respondi- Estou voltando para casa.
- Ah sim...e, pelo jeito, o senhor mora longe daqui.
- Sim. - respondi-
- Deve ser difícil.
- E é mas a gente se acostuma.

Fiquei com essa conversa na cabeça. Engraçado...apesar de ter nascido e de ter sido criado aqui nunca, realmente, me senti em casa. Nunca tive muita dificuldade para me adaptar à vida fora do Brasil, apesar das previsões quase que apocalípticas dos meus amigos e parentes.

Casa... para mim é o lugar onde você se sente parte de um todo. Onde você se sente confortável o bastante para ser si mesmo. Um porto seguro para a mente e o corpo.

- Bom dia, senhor. Alguma preferência de assento?

Levei um baque. Estava tão absorvido em meus pensamentos que nem me dei conta que já tinha não só chegado no aeroporto, como retirado minha bagagem do taxi, pagado o taxista e já estava sendo atendido pela companhia aérea.

- Você tem algum na janela do lado direito?
- Deixe-me verificar...sim. Qualquer fileira?
- Pode ser.
- Ok, senhor. O senhor vai despachar somente esta mala?
- Sim, aqui está.
- Obrigado, senhor. Aqui está seu cartão de embarque. Se quiser pode aguardar no lounge o embarque.
- Obrigado.
- Boa viagem.

Após segui para o lounge da empresa, onde fui para a janela e comecei a olhar para fora.

Casa...o conceito estava circulando na mente... Seria o lugar onde nascemos, ou lugar onde nos criamos ou o lugar onde nos sentimos bem? Apesar de ter definido anteriormente que era a última opção, ainda estava reticente.

A dúvida persistia, afinal, aqui tinha meus pais, a família, os amigos mais antigos... mas não me sentia bem. Não fazia parte daqui e este lugar não tinha muito a ver comigo. Mas lá...apesar de estar longe da família e dos amigos mais antigos, eu tinha meu trabalho, e outros amigos que também me eram queridos. Além do fato de me sentir parte da vida do lugar. É inegável que me acostumei de tal sorte com a capital inglesa que às vezes tenho a impressão de ter nascido lá e de ter morado lá a vida toda. A vida é engraçada mesmo...

- Atenção passageiros do vôo British Airways 247 para Londres, favor embarcar no portão 10.

Era o meu chamado. Uma sensação agradável tomou meu corpo de assalto. Como um cobertor quente numa noite fria. Era aconchegante. Senti, também, um certo alívio de estar voltando para casa. Casa...é. Estava retornando ao lar, minha vida me espera.

September 24, 2007

To the end of the world

Ever felt like you don't belong to the place you are? Ever had the constant feeling that you're not meant to be where you are? Ever thought that you'd be better off living elsewhere?

If you ever had these ideas you know how I'm feeling right now. I wand to go away, far away from this place. To a new world where things are different, where I feel part of a whole, where I can finally say: "I'm home, at last."

I feel unfit. Feel like my values are worthless, my ideals..meaningless.

I'm doing my best to get my things and get the hell out of here, hope I succeed and become a citizen of the world instead of staying in this wall-less prison, chained to this land.

I wish to liberate my mind, my body and my soul and expand my horizons to eternity, making my conscience meet the great blue sky spreading it's wings.

To wrap up I quote (again) this famous poem by Manuel Bandeira:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

PS: For some weird reason when I read this poem Amsterdam pops up into my mind.

September 10, 2007

Ad Astra


As vezes não olhamos pra ele. Quase nunca olhamos pra ele simplesmente para apreciá-lo, ou para pensar ou simplesmente sem motivo aparente algum.

O céu. Meio por onde trafegam todos os dias milhares de pessoas, terabytes de informação, onde são lançados toneladas de detritos industriais, onde milhões de pássaros voam, onde tempestades se formam, berço dos raios ou, como é moda nos últimos anos: a grande fronteira da humanidade.

Mas não se deve esquecer o papel libertador que ele pode exercer. Ele pode ser o veículo libertador dos pensamentos e das emoções, ponto de partida para viagens com o espírito, embora nossa presença física ainda esteja fincada e enraizada aqui embaixo.

Através dele, entramos em contato com as estrelas, com a lua que tanto inspiram artistas e apaixonados. Tal percepção pode ser exemplificada de várias maneiras mas me vem a cabeça uma poema:

Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.

Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite.

Manuel Bandeira
(do livro "Estrela da vida inteira")

Interessante como pontos coloridos no firmamento podem tocar o coração e a alma das pessoas. Talvez por serem inatingíveis ao toque, pelo mistério que as envolve (apesar da ciência insistir em torná-las "frias" à percepção humana), talvez espelhamos nelas nossas emoções, nossos anseios, nossos desejos, muitas vezes elas são veículo para atingirmos algo maior, um contato mais próximo com Deus, seja qual for a crença da pessoa em questão.

Enquanto escrevo este post, faz uma linda noite la fora. Sem nuvens para se colocarem entre o corpo e o espírito, a lua se escondeu mas as estrelas estão lá, como sempre estão a cada dia, todos os dias.

Apesar de diário, não me canso de tal espetáculo, minha mente anseia as asas dadas pelo firmamento, deseja voar para bem longe do nosso meio mundano.

Pois bem, acho que é hora de viajar.