O alarme toca. Estendo a mão para a mesa do lado da cama para buscar meus óculos, afinal sem eles sou indubitavelmente cegueta. Após tatear o topo do móvel encontro meu surrado par de óculos que prontamente coloco no rosto. Segundo o relógio, são 7 horas da manhã. Olho para o lado e vejo a cama vazia. Ao fundo, ouço o barulho da água batendo no piso do box: ela está no banho. Eu aos poucos vou acordando: primeiro me estico e depois, finalmente, resolvi me levantar. Fui a janela e através dela vejo uma cinzenta manhã de abril lá fora.Enquanto ela tomava seu banho, eu resolvi ir ao armário separar a roupa que iria usar hoje: camisa, calça e sapatos sociais e um casaco não muito pesado para evitar um possível desconforto térmico nesta manhã de início de primavera na Alemanha.
Enquanto escolhia o casaco, ela saiu do banho e com um olhar doce me disse, sem palavras, que era a minha vez. Agradeci, também sem palavras e fui ao banho. Debaixo do chuveiro, estanhamente, não pensava em assuntos mundanos como o dia de trabalho que viria a seguir, pensava apenas naquela cinzenta manhã de primavera e como seria bom sair com ela pra passear no Wannsee. Apesar de estar nublado a previsão do tempo dizia que o sol iria aparecer. Perfeito. Levaria minha máquina e iríamos aproveitar o dia em um lugar bonito. Depois um almoço em algum lugar qualquer e depois, a tarde, algum programa de turista como uma volta na Potsdammer Platz culminando, a noite após um jantar, a uma ida ao teatro ou ao cinema. Seria um bom dia. Mas não era o dia pra isso. Devido às minhas divagações, estava atrasado.
Fechei o chuveiro e, após me secar, corri para me vestir. Quando me dei por conta, ela estava pronta. Uma coisa rara porque normalmente eu a espero um pouco depois de pronto. Depois, tomamos um rápido café juntos e saímos para um dia como todos os outros dias: andamos até o metrô, apesar de ela preferir o ônibus hoje abriu uma exceção já que a televisão dizia que havia um trânsito péssimo na cidade, e ao chegar na plataforma, esperei o trem dela chegar. O meu já tinha passado mas não iria embarcar, queria ficar mais tempo com ela, mesmo que isso implicasse em um atraso.
O trem chegou, não muito cheio, e ela embarcou. Depois disso um segundo, que me servia, adentrou na estação. Após entrar no veículo continuei pensando naquele dia perfeito que tinha idealizado no banho. Comecei a sorrir, o que me diferenciou da sisuda composição humana daquele metrô. Podia quase sentir a brisa do lago no rosto e o toque da mão dela na minha.
Subitamente, minha "viagem" foi interrompida: era a minha estação. Sai apressadamente do vagão e preguiçosamente atravessei a estação. Ao chegar na rua, a manhã que era cinzenta começava a ganhar contornos de azul e dourado. Ao sentir o calor do sol e uma morna brisa no rosto conclui: "é...a previsão do tempo estava certa." No mesmo instante, busquei meu celular no bolso e liguei pra ela. Precisava contar sobre o dia que tinha idealizado para nós dois. Ouvi um suspiro e uma resposta curta: "eu também."
PS: Estações Kufürsterdamm e Zoologischer Garten. Qual é de quem é facil (ou não) de saber.

